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13/07/2015
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Não confunda inovação com criatividade!

Por Patrícia Bispo para o RH.com.br

Você já parou para pensar se as ações adotadas pela sua empresa estão, de fato, contribuindo para que os talentos tornem-se profissionais inovadores? Muitas vezes, as organizações investem em espaços físicos agradáveis e até destinados ao lazer, acreditando que isso poderá abrir "as portas" para que os colaboradores relaxem e ao retornarem aos seus postos de trabalho, transpirem inovação por todos os poros. Contudo, estimular a inovação não é tão simples assim até porque existem fatores que podem "conspirar" contra a sua disseminação no ambiente organizacional. De acordo com Martha Terenzzo, sócia da Storytellers Brand´N Fiction e consultora organizacional, o medo de errar inibi as pessoas a se tornarem inovadoras, inclusive no Brasil. "Temos aqui um aspecto cultural, pois como brasileiros sempre recebemos as ideias inovadoras de fora e adotamos como melhor do que as nossas. Nossas escolas não estimulam as crianças ao erro e punem qualquer tipo de equívoco", alerta a especialista. Em entrevista concedida ao RH.com.br, ela fatores como falta de credibilidade da própria corporação, ausência de liderança, e até alta competitividade interna entre pares, podem desestimular as pessoas a contribuir com ideias criativas e consequentemente ações inovadoras. Confira a entrevista na íntegra e aproveite a leitura!


RH.com.br - O que podemos compreender por inovação?
Martha Terenzzo - A palavra apesar de banalizada em alguns meios é uma das mais importantes para os profissionais das empresas. Em qualquer setor de atuação há um modus operandi corporativo em cheque. A Era da Abundância, pós Segunda Guerra Mundial, trouxe muita inovação inventiva e ao mesmo tempo novas formas de consumir. No entanto tudo ficou igual, tudo ficou mais acessível. A inovação hoje é uma forma de pensar a reinvenção a si próprio e aos modelos de negócio. Academicamente podemos definir que inovação mercadológica é um processo de construção de valor a partir da aplicação bem-sucedida de uma nova ideia ou uma invenção. O seu impacto sobre o mercado é bastante significativo, estabelecendo um novo parâmetro de comparação junto aos clientes e concorrentes. Implica na criação, na implantação e na adoção de algum produto, serviço, processo ou modelo de negócio novo.

RH - Ser inovador é privilégio de algumas pessoas ou isso é mito?
Martha Terenzzo - Há alguns anos atrás fiz um artigo que se chamava "Demistificando a Inovação", algumas pessoas se surpreenderam ao ver que por trás da inovação deve haver gestão e processo. Por trás do processo há a necessidade de sistematizar a busca de ideias e criatividade. Ou seja, trata-se de muito trabalho e não há nenhum fator de sorte. Existe sim um perfil de pessoas que por serem mais curiosas, persistentes e exploradoras podem tornar-se mais inovadoras. O mito ocorre pelas próprias histórias que nos contam, como é o caso de Arquimedes, o matemático que ao fazer uma descoberta gritou a palavra ‘Eureka'. Mas o fato é que Arquimedes de Siracusa, estava há anos como resolver vários problemas. Nesse dia ele estava tomando banho em sua banheira e viu a solução aparecer. Isso se deve porque naquele momento sua mente estava livre do problema, justamente deixando seu processo mental para outros assuntos e, portanto, menos pré-ocupado em responder a uma solução imediata. É nesse momento que sua criatividade acessou vários dos repertórios adquiridos, e instaurou-se o insight. Os inovadores não tem uma maçã caindo em sua cabeça e nem tropeçam em fórmulas de vacina contra penicilina, essas pessoas mergulharam em problemas a serem resolvidos. Por isso, todos nós podemos ser inovadores.

RH - Inovação confunde-se com criatividade ou existem diferenças peculiares?
Martha Terenzzo - Criatividade e inovação são primas, mas não são as mesmas coisas. No Brasil, infelizmente, aprendemos desde pequenos que as palavras fazem parte de um mesmo formato de pensar e atuar. Mas não é. Criatividade é a capacidade de dar origem a coisas novas e valiosas, encontrar novos e melhores modos de resolver problemas que podem ou não ser antigos. Inovação é a implementação dessas ideias através de um novo serviço, um novo produto ou novo modelo de negócios. A inovação contextualizada as corporações em que vivemos hoje pode ser feita num setor, numa área, ou em toda a empresa. Gosto muito do estrategista Gary Hamel, da consultoria Strategos que define inovação como um processo estratégico de reinvenção contínua do próprio negócio e de criação de novos conceitos de negócios. É exatamente esse o momento em que as empresas de qualquer porte juntamente com seus colaboradores devem pensar. Nunca foi tão importante inovar, para inovar é necessário ser criativo, pensar em formas de dar origem a coisas novas e valiosas, muitas vezes fazendo algo num novo formato. Mas até aqui estamos no setor das ideias, da criatividade. Isto ainda não é inovação, pois não foi implementado e processado por pessoas. Somente após essa ideia ser implementada de forma criativa, podemos ter a inovação. A inovação acontece quando implementada.

RH - Quem é inovador passa obrigatoriamente pela quebra de paradigmas?
Martha Terenzzo - Acredito que sim. O ato de pensar criativamente pode não ser uma ruptura, mas inovar e implementar algo novo requer uma dose de risco e coragem para romper paradigmas. E aqui é importante não confundir a novidade com a inovação. Novidade é algo mais banal, pode estar num sabor, num modelo de carro, num aplicativo mais moderno. Isso raramente quebra paradigma. E existe um perfil de inovador que é movido a esse tipo de desafio, o da ruptura. O que o motiva é justamente o fato de fazer algo que ninguém fez ou é difícil de ser feito.

RH - Quais são as principais competências comportamentais que um profissional inovador costuma revelar no dia a dia?
Martha Terenzzo - Trabalhei muitos anos em grandes empresas como Sadia, Parmalat, Reckitt Benckiser, Ajinomoto e convivi com muitos tipos distintos. Para a cultura japonesa, por exemplo, a grande competência corporativa está na fidelidade a empresa que você trabalha, assim como a obediência aos mais velhos. Para ser um inovador nessas empresas é preciso paciência e resiliência, pois o conceito de inovar rapidamente é diferente do Ocidente. Nos Estados Unidos há o estímulo a errar com risco calculado, portanto uma competência é a coragem de ousar e também o pragmatismo para se desapegar de seus próprios projetos. Aprendi com alguns colaboradores que não existe grupo único de competências comportamentais para inovadores, mas sim um conjunto de habilidades que se adaptam à cultura de cada corporação. Portanto, gosto de explicar em palestras e treinamentos de empresas que o inovador é aquele que melhor se adaptar às mudanças e nesse contexto conseguir implementar projetos que de fato impactem positivamente para um grande número de pessoas. Caso queiramos abordar o tema de forma mais genérica, temos como competências as habilidades de ouvir e entender comportamentos, algo que por sinal está sempre atrelado ao RH ou à Gestão de Pessoas. Se entendemos comportamentos de pessoas fica mais fácil ser inovador.

RH - De que forma as empresas podem tornar o ambiente propício à inovação?
Martha Terenzzo - Essa é uma pergunta recorrente em todas as empresas, inclusive nas próprias startups que por si só, muitas vezes, já nascem de uma inovação. Apesar de não ter uma única resposta, pois mais uma vez, insisto que depende da cultura da empresa, do ciclo de vida que ela está e do contexto do setor, obviamente é necessário ter alguém que acredite em mudanças. E aqui me refiro aos presidentes, aos fundadores, aos gestores do alto comando da empresa, conselheiros. Sem o apoio de alguns desses sponsors fica mais difícil. Portanto, se existe pelo menos uma dessas pessoas no comando apoiando a ideia de tornar o ambiente mais inovador, temos a primeira barreira vencida. E existem técnicas, ferramentas e facilitadores para isso, mas de nada adianta se a empresa não tiver um sponsor para o ambiente. Nesse ponto, ambientes que estimulam a criatividade para inovar, normalmente são mais abertos, livres de mesas fixas, baias e estruturas departamentalizadas. Porém, de nada adianta ter o ambiente de "fachada", ou seja áreas de lazer, ginástica, palestras, se as pessoas sequer têm tempo de executar as tarefas básicas. E o grande risco que corremos hoje é esse, muitas empresas embalam seus ambientes como inovadores com espaços modernos, esteticamente bonitos, com uma áurea quase performática de liberdade, mas a concretização da inovação não acontece, porque não há mudança de mindset, ou seja, de modelo de pensamento para inovar.

RH - Que fatores costumam podar as chances das pessoas apresentarem ações inovadoras?
Martha Terenzzo - São muitos, mas os principais aqui no Brasil, justamente está ligado ao desejo de algumas corporações de que podem inovar, desde que seja sem risco e sem erros. O erro é punido e visto como fracasso, quando é ao contrário. Só aprendemos a andar de bicicleta depois de cair muitas vezes, aprendemos a andar depois de engatinhar e cair várias vezes. O erro faz parte do aprendizado. Em segundo, lugar fatores como falta de credibilidade da própria corporação, ausência de liderança, e até alta competitividade interna entre pares, podem desestimular as pessoas a contribuir com ideias criativas e consequentemente ações inovadoras.

RH - A gestão da liderança impacta diretamente no aspecto inovador do time?
Martha Terenzzo - Acredito muito na liderança de pessoas. Um líder que entende de comportamento humano tem muito mais chance de inovar, ele consegue engajar times interdisciplinares e trabalhar a multidiversidade.

RH - Que suporte a área de Recursos Humanos pode dar, para que uma empresa torna-se aberta à inovação?
Martha Terenzzo - Todo o suporte para mim está na área de Pessoas. Desde treinamento, desenvolvimento de processos e sistemas de inovação, implementação de cultura de inovação até identificar perfis de profissionais para projetos específicos. Minha experiência em grupos multidisciplinares sempre contou com o apoio da área de RH. Acredito que para inovar com valor é preciso ter as pessoas como foco, sem elas não há mudança. O RH é o mais importante, mas estranhamente algumas vezes é relegado e sequer chamado para projetos e reuniões de processos de inovação. Um erro que pode comprometer a estratégia da empresa e suas pessoas. Portanto, a área de RH ao meu ver deve ser não somente incluída, mas cocriar com os demais setores.

 

Palavras-chave: | Martha Terenzzoi inovação | criativo |

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